A Associação dos Usuários dos Portos do Rio de Janeiro (USUPORT-RJ) teve a hon­ra de par­ti­ci­par do 39° Encontro Nacional de Praticagem, rea­li­za­do em Brasília nos dias 15 e 16 de setem­bro. Através das suas enti­da­des de clas­se, os usuá­ri­os dos por­tos, embar­ca­do­res expor­ta­do­res e impor­ta­do­res, deve­ri­am par­ti­ci­par des­ses encon­tros da pra­ti­ca­gem, mas não ape­nas para mar­car pre­sen­ça. A par­ti­ci­pa­ção é impor­tan­te como uma enor­me opor­tu­ni­da­de de apren­di­za­do sobre um tema impor­tan­tís­si­mo para o Brasil que são os aces­sos por­tos, por exem­plo, e as enor­mes com­ple­xi­da­des e difi­cul­da­des impos­tas aos prá­ti­cos para que navi­os de gran­des dimen­sões atra­quem e desa­tra­quem nos nos­sos por­tos, com aces­sos pre­cá­ri­os por con­ta da fal­ta de inves­ti­men­tos gover­na­men­tais, per­mi­tin­do a fluên­cia no nos­so comér­cio exte­ri­or. Se o Brasil, con­se­gue rece­ber embar­ca­ções de 8,9 ou 10 mil TEUS, isso se deve a pra­ti­ca­gem e não ao gover­no.

Lamentavelmente, a dis­cus­são sobre a pra­ti­ca­gem do Brasil tomou um rumo sen­sa­ci­o­na­lis­ta que, de lon­ge, refle­te a rea­li­da­de de uma cate­go­ria que pres­ta um ser­vi­ço de extre­ma rele­vân­cia ao país, fazen­do, mui­tas vezes, aqui­lo que o Estado dei­xa de fazer pela segu­ran­ça da nave­ga­ção, das pes­so­as e do meio ambi­en­te. Trata-se de uma cate­go­ria cujos pro­fis­si­o­nais são extre­ma­men­te qua­li­fi­ca­dos, mui­tos são ofi­ci­ais de Marinha Mercante e Marinha de Guerra, com cur­sos supe­ri­o­res no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), no Instituto Militar de Engenharia (IME) e nas prin­ci­pais uni­ver­si­da­des esta­du­ais e fede­rais do país. Não é difí­cil con­ver­sar com um prá­ti­co que pos­sua pós-gra­du­a­ção, mes­tra­do, dou­to­ra­do, inclu­si­ve no exte­ri­or, e que fale inglês (bási­co pra um prá­ti­co) e outras lín­guas flu­en­te­men­te. Estamos falan­do de pro­fis­si­o­nais que pode­ri­am, tran­qui­la­men­te, atu­ar como exe­cu­ti­vos nas prin­ci­pais empre­sas do país, inclu­si­ve mul­ti­na­ci­o­nais, ganhan­do exce­len­tes salá­ri­os, par­ti­ci­pa­ções nos lucros e bônus. Mencione-se ain­da que esses pro­fis­si­o­nais estão cons­tan­te­men­te via­jan­do ao exte­ri­or para atu­a­li­za­ção e apri­mo­ra­men­to. Todos os inves­ti­men­tos da pra­ti­ca­gem, seja na qua­li­fi­ca­ção pro­fis­si­o­nal, seja na enor­me e com­ple­xa estru­tu­ra ope­ra­ci­o­nal, não rece­be um cen­ta­vo sequer do gover­no, que mais atra­pa­lha do que aju­da, para dizer a ver­da­de. Aliás, se o gover­no usas­se a mes­ma dis­po­si­ção que usa para des­truir a pra­ti­ca­gem na melho­ria dos aces­sos aqua­viá­ri­os, com cer­te­za esta­ría­mos no melhor dos mun­dos. Atualmente, não sai um pro­je­to de dra­ga­gem no Brasil sem a par­ti­ci­pa­ção da pra­ti­ca­gem.

Para que os usuá­ri­os que nos acom­pa­nham pos­sam ter uma ideia do resul­ta­do des­se altís­si­mo nível de pro­fis­si­o­nais, os quais deve­ría­mos nos orgu­lhar e defen­der, em 2014, foram rea­li­za­das cer­ca de 84.000 mano­bras em 2014 e ape­nas 04 inci­den­tes envol­ven­do a pra­ti­ca­gem foram veri­fi­ca­dos, porém, não exa­ta­men­te de res­pon­sa­bi­li­da­de dos prá­ti­cos a bor­do. Em ter­mos per­cen­tu­ais, esta­mos falan­do 99,9999% de efi­ci­ên­cia. Como com­pa­ra­ti­vo des­sa efi­ci­ên­cia, pode­mos pegar os núme­ros decla­ra­dos pelo CENTRONAVE ao Jornal Valor Econômico, em que seus asso­ci­a­dos rea­li­zam no Brasil cer­ca de 25.000 esca­las por ano e omi­tem entre 1% e 2% des­sas, ou seja, 500 esca­las são can­ce­la­das por ano (o núme­ro pode­ria ser ain­da mai­or, não fos­se a pra­ti­ca­gem). Como esses can­ce­la­men­tos ocor­rem geral­men­te no seg­men­to de con­têi­ne­res, e que des­sa ins­ti­tui­ção tam­bém fazem par­te arma­do­res de outros seg­men­tos, esses per­cen­tu­ais podem ser ain­da mai­o­res, isso sem men­ci­o­nar as milha­res de empre­sas expor­ta­do­ras e impor­ta­do­ras pre­ju­di­ca­das com as omis­sões de por­tos, pois o seg­men­to de con­têi­ne­res no trans­por­te marí­ti­mo aten­de à mas­sa de usuá­ri­os. Não seria sur­pre­sa se, atra­vés de estu­dos téc­ni­cos séri­os, a pra­ti­ca­gem fos­se con­si­de­ra­da a cate­go­ria ou seg­men­to mais efi­ci­en­te do nos­so setor. Vale aqui des­ta­car, que mui­tos coman­dan­tes de navi­os, inclu­si­ve bra­si­lei­ros, não dese­jam abrir mão da pra­ti­ca­gem, pois sabem que, se um dia isso acon­te­cer, deve­rão tam­bém assu­mir as res­pon­sa­bi­li­da­des sobre os resul­ta­dos pro­du­zi­dos pelas exi­gên­ci­as fei­tas por seus patrões. A his­tó­ria nos mos­tra resul­ta­dos catas­tró­fi­cos des­sa ganân­cia pelo domí­nio da cadeia por par­te da arma­ção.

É por ver de per­to o nível de seri­e­da­de, envol­vi­men­to, inves­ti­men­tos e qua­li­fi­ca­ção dos nos­sos prá­ti­cos que defen­de­mos tec­ni­ci­da­de na hora de tra­tar do tema do Brasil. Não acre­di­ta­mos que a Comissão Nacional para Assuntos da Praticagem (CNAP) tra­te do assun­to com o nível téc­ni­co que ele exi­ge, por­que, a coi­sa está con­ta­mi­na­da pela polí­ti­ca. No Brasil, a polí­ti­ca, os polí­ti­cos e as ins­ti­tui­ções por eles con­ta­mi­na­das per­de­ram a con­fi­an­ça da soci­e­da­de, há mui­to tem­po. Estamos no país da Lava Jato e vive­mos em uma clep­to­cra­cia, como mui­to bem colo­cou o Ministro do STF Gilmar Mendes.

Elegemos os vilões dos altos cus­tos do setor, sem conhe­ci­men­to de cau­sa e sem con­si­de­rar quan­to cus­ta ao país, por exem­plo, a fal­ta de regu­la­ção dos arma­do­res estran­gei­ros e inter­me­diá­ri­os, as indús­tri­as das sobre­ta­xas e sobre-esta­di­as, que tor­na­ram res­sar­ci­men­to e inde­ni­za­ção fon­tes de recei­tas para livrar os fre­tes. E oTerminal Handling Carge (THC) que tem nor­ma­ti­vo regu­lan­do a des­pe­sa (Res. Antaq 2.389), deter­mi­nan­do que é res­sar­ci­men­to, mas que, nem auto­ri­da­de e nem arma­do­res se pre­o­cu­pa­ram e apre­sen­tar essas con­tas aos usuá­ri­os e a soci­e­da­de? Experimentem fazer as con­tas por cada con­têi­ner que paga sobre­ta­xas, THC e sobre-esta­di­as sem regu­la­ção. Pegue esse cus­to e mul­ti­pli­que pela quan­ti­da­de de con­têi­ne­res movi­men­ta­dos por ape­nas um navio. Por fim, mul­ti­pli­que pelos milha­res de navi­os e milhões de uni­da­des movi­men­ta­das. Se, mui­to por bai­xo, a fal­ta de regu­la­ção cus­tar ao usuá­rio U$200,00 por uni­da­de, o que não é difí­cil, veri­fi­ca­re­mos que o pro­ble­ma não está exa­ta­men­te na pra­ti­ca­gem.

Indo além, quan­to será que cus­ta em ine­fi­ci­ên­cia o ver­da­dei­ro cabi­de de empre­gos e o apa­re­lha­men­to polí­ti­co das nos­sas auto­ri­da­des por­tuá­ri­as? Quanto será que cus­ta ao país a fal­ta de dra­ga­gem em inves­ti­men­to nos aces­sos aqua­viá­ri­os aos nos­sos por­tos? Quanto será que cus­ta ao país finan­ci­ar a cons­tru­ção de navi­os de empre­sas bra­si­lei­ras con­tro­la­das por estran­gei­ros? Quanto será que cus­ta ao país a degra­da­ção da nos­sa mari­nha mer­can­te? Quanto será que cus­ta ao país em divi­sas não ter um navio por­ta con­têi­ne­res sequer arvo­ran­do ban­dei­ra bra­si­lei­ra, tocan­do os por­tos estran­gei­ros?

Somos inca­pa­zes de reco­nhe­cer a exce­lên­cia de ati­vi­da­des no mar exer­ci­das pela nos­sa gen­te. Não é só na pra­ti­ca­gem não. O pou­co da nos­sa Marinha mer­can­te que ain­da exis­te e insis­te, tam­bém é exce­len­te. Adoramos bater pal­mas para os estran­gei­ros e nos­sas auto­ri­da­des, essas últi­mas, que pou­co, ou nada fazem pelo inte­res­se públi­co da ati­vi­da­de de comér­cio exte­ri­or. Muitos não conhe­cem a pra­ti­ca­gem, por­que o tra­ba­lho dela não apa­re­ce para a mai­o­ria. Ora, se o navio che­gou e foi embo­ra den­tro de uma nor­ma­li­da­de, sem som­bra de dúvi­das, essa tran­qui­li­da­de se dá pela exce­lên­cia da nos­sa pra­ti­ca­gem. Na hora de cri­ti­car os pés­si­mos aces­sos dos nos­sos por­tos, pas­sem a elo­gi­ar aque­les que con­se­guem mano­brar em segu­ran­ça dos navi­os, prin­ci­pal­men­te os gran­des, de for­ma que con­si­gam entrar e sair tran­qui­la­men­te. Não foi um mági­co que pos­si­bi­li­tou isso. Foi o tra­ba­lho de uma cate­go­ria extre­ma­men­te qua­li­fi­ca­da, que se dedi­ca mui­to ao ser tra­ba­lho.

Se defen­der a pra­ti­ca­gem é exi­gir que o tema seja tra­ta­do com o ele­va­dís­si­mo nível téc­ni­co que ele exi­ge, então defen­de­mos a pra­ti­ca­gem. Se, defen­der a pra­ti­ca­gem, é não con­cor­dar com o for­ma­to ado­ta­do por essa aber­ra­ção polí­ti­ca clep­to­cra­ta cha­ma­da CNAP, então, defen­de­mos sim a pra­ti­ca­gem. Quem bom seria para o Brasil, se o nos­so gover­no cri­as­se, com a mes­ma inten­si­da­de, uma comis­são para res­ga­te da ban­dei­ra bra­si­lei­ra de nave­ga­ção e da arma­ção naci­o­nal.

Aos usuá­ri­os, suge­ri­mos que entrem em con­ta­to com as pra­ti­ca­gens locais ou com o Conapra e agen­dem visi­tas para conhe­cer toda estru­tu­ra envol­vi­da e a ati­vi­da­de em si. É impor­tan­te que sai­am dos escri­tó­ri­os e vejam de per­to o tra­ba­lho da pra­ti­ca­gem. Só assim será pos­sí­vel cri­ar sen­so crí­ti­co de ver­da­de. Garantimos que as opi­niões muda­rão e que a tec­ni­ci­da­de que o tema exi­ge será colo­ca­da na fren­te do sen­sa­ci­o­na­lis­mo cri­a­do jus­ta­men­te por quem deve­ria ser o gran­de par­cei­ro da pra­ti­ca­gem. Ora, se os res­pon­sá­veis pelo sen­sa­ci­o­na­lis­mo não têm par­ce­ria com quem paga os seus ser­vi­ços, ou seja, com seus cli­en­tes usuá­ri­os, não seria com a pra­ti­ca­gem que eles teri­am!

Por fim, para que seja aber­ta uma dis­cus­são téc­ni­ca sobre o tema, dei­xa­mos um link para uma apre­sen­ta­ção fei­ta em 2008 por exe­cu­ti­vos de uma empre­sa de nave­ga­ção estran­gei­ra, que fazem um demons­tra­ti­vo de recei­tas e des­pe­sas. Vejam no sli­de 31 que as pra­ti­ca­gens dos Portos de Rotterdam e Hamburgo são bem mais caras que as pra­ti­ca­gens dos por­tos do Rio de Janeiro e de Santos e, curi­o­sa­men­te, os cus­tos por­tuá­ri­os dos por­tos estran­gei­ros tam­bém são mai­o­res que os nos­sos para os arma­do­res. Já o THC não é tão bara­to assim. Nesses sli­des tam­bém é impor­tan­te ava­li­ar os pesos das sobre­ta­xas sobre os usuá­ri­os. Vejam: http://www2.al.rs.gov.br/forumdemocratico/LinkClick.aspx?fileticket=e‑dCTEFY0V8=&tabid=3229&mid=4649

tabela-encontro-nacional-praticagem