TUDO SOBRE O 3º SEMINÁRIO PLANEJAMENTO PORTUÁRIO NO RJ

Se nos pri­mei­ros even­tos os con­cei­tos esti­ve­ram pre­sen­tes de for­ma mais aca­dê­mi­ca, na ter­cei­ra edi­ção do Seminário Planejamento Portuário os resul­ta­dos foram vis­tos na prá­ti­ca. O binô­mio segurança/eficiência foi uma tôni­ca entre os pales­tran­tes, pro­van­do ser pos­sí­vel desen­vol­ver os por­tos com res­pon­sa­bi­li­da­de para a soci­e­da­de que usu­frui do comér­cio exte­ri­or, da cabo­ta­gem e do meio ambi­en­te pre­ser­va­do. Cerca de 200 con­vi­da­dos da comu­ni­da­de marí­ti­ma com­pa­re­ce­ram ao even­to no Rio de Janeiro, entre eles o dire­tor de Portos e Costas da Marinha, vice-almi­ran­te Carlos André Coronha Macedo, home­na­ge­a­do na ocasião.

Quem abriu o semi­ná­rio foi o coor­de­na­dor da pro­gra­ma­ção, dou­tor Edson Mesquita, con­sul­tor do Instituto Praticagem do Brasil em Brasília. Ele res­sal­tou que mui­tos estu­dos e empre­sas de enge­nha­ria – que come­ça­ram como star­tups – cola­bo­ram para o pla­ne­ja­men­to por­tuá­rio, e con­tam com apoio da pra­ti­ca­gem em seu desenvolvimento:

– O prá­ti­co, por­tan­to, não só con­duz o navio. Ele geren­cia o ris­co. E tem a pre­o­cu­pa­ção com a segu­ran­ça e efi­ci­ên­cia das operações.

Coube ao coman­dan­te indi­a­no Gurpreet Singhota fazer a pri­mei­ra pales­tra. Consultor marí­ti­mo com mais de 26 anos de atu­a­ção na Organização Marítima Internacional (IMO), ele abor­dou as regu­la­ções da enti­da­de que tra­tam de pra­ti­ca­gem. Singhota comen­tou des­de a Resolução A.159, de 1968, que incen­ti­va os gover­nos a orga­ni­zar o ser­vi­ço onde incre­men­ta a segu­ran­ça, aos dias atu­ais, pas­san­do pela Resolução A.960, de 2003, sobre reco­men­da­ções para trei­na­men­to, cer­ti­fi­ca­ção e pro­ce­di­men­tos ope­ra­ci­o­nais para prá­ti­cos. Dela, des­do­brou-se o Curso de Atualização para Práticos (ATPR) bra­si­lei­ro, refe­rên­cia mundial.

Entre as estra­té­gi­as para asse­gu­rar con­for­mi­da­de com as regu­la­ções, o con­sul­tor defen­deu que os paí­ses tenham uma legis­la­ção espe­cí­fi­ca sobre a ati­vi­da­de, atu­a­li­za­da regu­lar­men­te, algo que o Brasil alcan­çou, em janei­ro de 2024, com a apro­va­ção da Lei nº 14.813 moder­ni­zan­do a Lei de Segurança do Tráfego Aquaviário (Lei nº 9.537 de 1997).

Para garan­tir os padrões do ser­vi­ço, o coman­dan­te dis­se que é neces­sá­rio mui­to treinamento:

– Cito como exem­plo o cen­tro de simu­la­ções implan­ta­do pela Praticagem do Brasil, em Brasília, por meio do seu Instituto.

Com o avan­ço das tec­no­lo­gi­as a bor­do e a dimi­nui­ção do núme­ro de tri­pu­lan­tes, Singhota tem obser­va­do aumen­tar aci­den­tes rela­ci­o­na­dos à dis­tra­ção no celu­lar, o que requer vigi­lân­cia redo­bra­da do prá­ti­co, inclu­si­ve dele pró­prio quan­to ao uso do apa­re­lho duran­te as manobras. 

Após o coman­dan­te, foi a vez de o eco­no­mis­ta Tiago Toledo, che­fe do Departamento de Transporte e Logística do BNDES, rea­li­zar sua apre­sen­ta­ção. Ele lide­ra no ban­co as ope­ra­ções de cré­di­to à infra­es­tru­tu­ra e nave­ga­ção. Toledo apre­sen­tou a visão de lon­go pra­zo da ins­ti­tui­ção no finan­ci­a­men­to, des­ta­cou pro­je­tos apoi­a­dos e apon­tou um desafio:

– Precisamos de bons pro­je­tos com fon­te de recur­sos ade­qua­da. Essa con­jun­ção é que vai gerar os inves­ti­men­tos. No entan­to, tal­vez fal­tem bons projetos.

O BNDES é um dos finan­ci­a­do­res do Porto Sudeste, loca­li­za­do em Itaguaí, no Rio de Janeiro. O enge­nhei­ro Luis Guilherme Caiado Sodré, dire­tor de Operações e Novos Negócios do empre­en­di­men­to, falou sobre os avan­ços obti­dos nos últi­mos anos gra­ças ao pla­ne­ja­men­to por­tuá­rio. Ele men­ci­o­nou a par­ti­ci­pa­ção dos prá­ti­cos nas simu­la­ções dos pro­je­tos. Foram 16 até o momento. 

– Vale mui­to a pena ter a enge­nha­ria asso­ci­a­da à ope­ra­ção. Operar é fácil. Foram mui­tos estu­dos com aná­li­se de ris­co para atin­gir a efi­ci­ên­cia atre­la­da à segu­ran­ça. Se não tivés­se­mos estu­da­do tan­to jun­to à pra­ti­ca­gem, não che­ga­ría­mos aon­de esta­mos. Muito em bre­ve, vamos movi­men­tar cem milhões de toneladas/ano – comemorou.

O pro­ces­so de des­car­bo­ni­za­ção do setor tam­bém exi­ge pla­ne­jar a infra­es­tru­tu­ra de abas­te­ci­men­to de navi­os zero emis­são ou menos polu­en­tes. Esse foi o tema de Luiz Gustavo Cruz, geren­te-geral de Controle Portuário e Infraestrutura do Porto do Açu, situ­a­do no nor­te fluminense.

O empre­en­di­men­to pre­ten­de estru­tu­rar um hub de hidro­gê­nio e deri­va­dos de bai­xo car­bo­no em uma área, ini­ci­al­men­te, de um quilô­me­tro qua­dra­do, em estu­do com players estran­gei­ros. O Terminal de Líquidos, por exem­plo, já abas­te­ceu um rebo­ca­dor com die­sel ver­de. Outra pro­pos­ta é cri­ar incen­ti­vos para esta­be­le­cer rotas ver­des ligan­do o Açu.

– A futu­ra indus­tri­a­li­za­ção do por­to será base­a­da em negó­ci­os sus­ten­tá­veis – afirmou.

À tar­de, os prá­ti­cos Reginaldo Pantoja (ZP-19) e Marcelo Delgado (ZP‑4) expu­se­ram par­ti­cu­la­ri­da­des locais de suas zonas de pra­ti­ca­gem e os desa­fi­os enfren­ta­dos por eles.

Em Rio Grande (RS), na entra­da da bar­ra, uma cor­ren­te trans­ver­sal aba­te a proa do navio em dire­ção ao mole leste. 

– A deri­va requer mui­ta habi­li­da­de dos prá­ti­cos mes­mo em situ­a­ção de for­ça mode­ra­da – fri­sou Pantoja.

O prá­ti­co enfa­ti­zou ain­da a impor­tân­cia da ado­ção de um pro­ce­di­men­to ope­ra­ci­o­nal padrão, com apli­ca­ção repe­ti­da das fer­ra­men­tas de geren­ci­a­men­to de ris­co nas manobras.

No Maranhão, a for­te cor­ren­te impe­ra na ZP‑4. Com a mai­or ampli­tu­de de maré do Brasil, a pra­ti­ca­gem pre­ci­sa apro­vei­tar as cur­tas jane­las ope­ra­ci­o­nais para man­ter a efi­ci­ên­cia por­tuá­ria. Por isso, as mano­bras qua­se sem­pre são simul­tâ­ne­as. Significa que, enquan­to um navio sai do ber­ço, outro já se movi­men­ta para entrar e atracar. 

– Esse é o nos­so dia a dia. Senão, cai a pro­du­ti­vi­da­de – expli­cou Marcelo Delgado.

Em Santos (SP), evo­lu­ções simul­tâ­ne­as tam­bém são uma neces­si­da­de, além do trá­fe­go em mão dupla. Afinal, o canal é sinu­o­so e estrei­to em vári­os tre­chos. O ganho ope­ra­ci­o­nal é pos­sí­vel por­que a pra­ti­ca­gem dedi­ca tem­po ao pla­ne­ja­men­to minu­ci­o­so das mano­bras, inves­te em fer­ra­men­tas ambi­en­tais e tec­no­ló­gi­cas e age em siner­gia com sta­kehol­ders como amar­ra­do­res e rebocadores.

– Precisamos que todos os players do por­to tra­ba­lhem jun­tos – dis­se o prá­ti­co Bruno Roquete Tavares, vice-pre­si­den­te da Praticagem de São Paulo.

De junho de 2024 a junho de 2025, foram agi­li­za­das, em Santos, 306 mano­bras, com tem­po oti­mi­za­do de cais de 1.529 horas e eco­no­mia esti­ma­da em US$ 148 mil.

Em Itajaí e Navegantes (SC), a exper­ti­se da pra­ti­ca­gem per­mi­tiu a entra­da de navi­os mai­o­res no Rio Itajaí-Açu, com a indi­ca­ção de uma nova bacia de evo­lu­ção para o giro das embar­ca­ções. Segundo o prá­ti­co Alexandre da Rocha, por­ta-con­têi­ne­res com capa­ci­da­de de trans­por­te de sete mil TEUs deram lugar aos de 12 mil. Ele fez um apa­nha­do do ris­co admi­nis­tra­do pela pra­ti­ca­gem de manei­ra geral: 

– Praticagem é fun­ção de con­tro­le, exis­te para aju­dar o navio a exe­cu­tar algo que não foi fei­to para fazer. O navio pas­sa toda sua vida útil em alto-mar e a pra­ti­ca­gem é o final­zi­nho de sua via­gem. Nós nun­ca mano­bra­mos o mes­mo navio duas vezes. As con­di­ções de car­re­ga­men­to e ambi­en­tais mudam e a embar­ca­ção enve­lhe­ce. Cada mano­bra é única.

Novas car­tas de navegação

O últi­mo pai­nel foi dedi­ca­do à impor­tân­cia dos dados hidro­di­nâ­mi­cos e mete­o­ro­ló­gi­cos. O dire­tor do Centro de Hidrografia da Marinha, capi­tão de mar e guer­ra Daniel Peixoto, trou­xe, em pri­mei­ra mão, a pró­xi­ma gera­ção de car­ta de nave­ga­ção ele­trô­ni­ca (mode­lo S‑100), que vai poder rece­ber atu­a­li­za­ções dinâ­mi­cas como infor­ma­ções de ven­to e cor­ren­te, oti­mi­zan­do rotas ao navegante:

– A par­tir de 2029, todos os ECDIS dos navi­os devem ser capa­zes de ler as car­tas S‑100.

A dire­to­ra téc­ni­ca e sócia da UMI SAN, Priscila Farias, comen­tou que, a par­tir da trans­mis­são de dados em tem­po real, pode­mos ter canais de aces­so mais oti­mi­za­dos e segu­ros. Porém, os dados oriun­dos de sen­so­res ambi­en­tais devem ser confiáveis:

– Simulações, sis­te­mas de cala­do dinâ­mi­co e ava­li­a­ções de ris­co neces­si­tam de infor­ma­ções dinâ­mi­cas e atu­a­li­za­das. Sem dado bom, não há jane­la segu­ra. Qualidade é o dado ser ade­qua­do ao pro­pó­si­to da efi­ci­ên­cia e segu­ran­ça. Qualidade gera segu­ran­ça que, por sua vez, é investimento.

Ela elen­cou os inú­me­ros desa­fi­os para asse­gu­rar a con­fi­a­bi­li­da­de, como loca­li­za­ção dos equi­pa­men­tos mete­o­ce­a­no­grá­fi­cos, modo de ins­ta­la­ção, dura­bi­li­da­de, manu­ten­ção, qua­li­fi­ca­ção de pes­so­al, entre outros, até mes­mo ava­ri­as por aves.

Por fim, o geren­te téc­ni­co da Praticagem do Maranhão e coor­de­na­dor do cen­tro de simu­la­ções da Praticagem do Rio, Claudio Coreixas, refor­çou a rele­vân­cia dos dados na sua apli­ca­ção nos simu­la­do­res de passadiço. 

Coeficientes hidro­di­nâ­mi­cos da simu­la­ção devem ser vali­da­dos com resul­ta­dos de pro­vas de mar e feed­backs de coman­dan­tes e prá­ti­cos, da mes­ma for­ma que os fato­res do ambi­en­te, sublinhou:

– É impor­tan­te que os dados ambi­en­tais real­men­te repre­sen­tem as con­di­ções locais médi­as e os seus extremos.

O pre­si­den­te da Praticagem do Brasil, prá­ti­co Bruno Fonseca, encer­rou o evento:

– No dia 22 de julho, assi­na­mos um acor­do com a Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) para dis­po­ni­bi­li­zar o nos­so esta­do da arte em simu­la­ções, vol­ta­do à aná­li­se de novos ter­mi­nais e expan­são de arren­da­men­tos. Essa par­ce­ria com o Instituto Praticagem do Brasil demons­tra que o ser­vi­ço vai mui­to além do pro­fis­si­o­nal na asa do navio com rádio na mão. Do nos­so pon­to de vis­ta, o som da segu­ran­ça é o silên­cio. Se não escu­tam falar da pra­ti­ca­gem, é por­que tudo trans­cor­re mui­to bem. Conduzimos cer­ca de 80 mil mano­bras anu­al­men­te e temos orgu­lho do nos­so bai­xo índi­ce de aci­den­tes. E, se somos tudo isso, é por fazer o tra­ba­lho com mui­to planejamento.

Parceria com a arbi­tra­gem e homenagens

Durante o semi­ná­rio, foi assi­na­do um ter­mo de coo­pe­ra­ção entre o Instituto Praticagem do Brasil e a Câmara de Arbitragem do Direito Marítimo, Portuário e Comércio Exterior (Camar). O Instituto está sem­pre dis­po­ní­vel para con­tri­buir com enti­da­des públi­cas e pri­va­das nos inte­res­ses que envol­vem a soci­e­da­de. A asso­ci­a­ção de esfor­ços entre as enti­da­des vai aju­dar a pro­mo­ver boas prá­ti­cas e desen­vol­ver o setor marí­ti­mo e portuário.

O ter­mo de coo­pe­ra­ção ins­ti­tu­ci­o­nal foi assi­na­do no pal­co pela dire­to­ra exe­cu­ti­va do Instituto, Jacqueline Wendpap, e pelo pre­si­den­te do Tribunal Marítimo, vice-almi­ran­te Ralph Dias, repre­sen­tan­do a Camar.

Além do dire­tor de Portos e Costas (foto), foram home­na­ge­a­dos o pre­si­den­te da Logística Brasil, André de Seixas, pelos dez anos da asso­ci­a­ção em defe­sa dos usuá­ri­os dos por­tos, e o geren­te téc­ni­co da Praticagem do Brasil, Raimundo Nascimento, há 19 anos na ati­vi­da­de e res­pon­sá­vel pela coor­de­na­ção do Curso ATPR.

O vice-pre­si­den­te da Praticagem do Brasil, prá­ti­co Marcello Camarinha, par­ti­ci­pou da entre­ga das lem­bran­ças aos pales­tran­tes. Entre os con­vi­da­dos, esti­ve­ram pre­sen­tes o capi­tão dos Portos do Rio, capi­tão de mar e guer­ra Luciano Calixto, o vice-pre­si­den­te da Federação Nacional dos Práticos, prá­ti­co Marcelo Cajaty, e os pro­fes­so­res Eduardo Tannuri, do Tanque de Provas Numérico da USP, e Paulo de Tarso Themistocles, da Coppe-UFRJ.

Confira todas as fotos do even­to em:
https://flic.kr/s/aHBqjCt7pP

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