Como os práticos se preparam para manobrar navios cada vez maiores

Por uma questão de economia de escala, os portos brasileiros vêm recebendo navios cada vez maiores ao longo dos anos. Contêineros de 228 metros de comprimento hoje chegam a 340 metros e já existe uma demanda para o recebimento de navios de 366 metros. Mas como se preparar para o impacto disso e manter a segurança das manobras levando-se em conta que a maioria dos portos foi instalada aproveitando-se condições naturais preexistentes? A praticagem brasileira está investindo fortemente em treinamento e equipamentos, como contou o prático Carlos Alberto de Souza Filho, membro do Conselho Técnico do Conselho Nacional de Praticagem (Conapra), ao site Portogente.

Além do comprimento, ressaltou ele, é preciso pensar na largura, no calado e no deslocamento dessas embarcações. A quantidade de água que elas deslocam é medida em toneladas e pode, por exemplo, partir cabos de amarração. No caso do Porto de Santos, essa questão da interação hidrodinâmica foi superada após estudo encomendado pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) ao laboratório Tanque de Provas Numérico (TPN) da USP, parceiro da praticagem. Concluiu-se que, com precauções, é possível receber esses meganavios. Porém, como fica a manobrabilidade deles no canal?

Pensando nisso, a praticagem do Estado de São Paulo enviou um grupo de práticos a Callao, no Peru, onde já se operavam esses navios, e depois a um centro de treinamento em Covington (Louisiana, EUA). Além de simuladores computacionais, que os práticos já haviam experimentado no TPN da USP, o centro norte-americano conta com modelos reduzidos – navios menores que reproduzem as mesmas reações hidrodinâmicas das grandes embarcações.

– Após essa visita, encomendamos uma customização do lago que eles dispõem para as duas curvas mais difíceis que temos em Santos e acertamos dez turmas de quatro práticos cada, para treinarem neste primeiro semestre nesses modelos reduzidos. O Conapra está fazendo o mesmo para o restante dos práticos do Brasil. Temos que nos adaptar, pois é um desafio grande – disse Souza Filho.

Em São Paulo, a praticagem encomendou ainda duas novas lanchas maiores e mais resistentes para este trabalho, informou o prático:

– Essas lanchas podem ir mais longe e, muito provavelmente, devemos embarcar nesses navios um pouco mais mar afora.

Outro investimento já feito pelos práticos no estado e que também será de grande valia nessa nova realidade é o sistema ReDraft, premiado pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) no ano passado. Isso porque o software calcula com mais precisão o calado máximo dos navios considerando as condições ambientais de maré, ondas e correntes marítimas. Antes da tecnologia, a restrição de operação era mais conservadora para evitar que um navio batesse no fundo.

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